Quebrando Tabus: Sexóloga Mariana Kiss fala sobre os mitos e desafios da sexualidade moderna

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Apesar dos avanços sociais e da grande quantidade de informações disponíveis na internet, falar sobre sexo ainda é um desafio para muitas pessoas. Vergonha, preconceitos e crenças construídas ao longo de gerações continuam influenciando a forma como homens e mulheres lidam com sua própria sexualidade.

Segundo a sexóloga Mariana Kiss, muitos dos problemas enfrentados nos relacionamentos têm origem justamente na dificuldade de dialogar sobre desejos, limites e expectativas. “O sexo ainda é cercado por tabus que impedem as pessoas de viverem sua sexualidade de forma saudável e consciente. Muitas vezes, a falta de informação gera insegurança, culpa e conflitos dentro dos relacionamentos”, explica.

Entre os temas que ainda provocam desconforto estão a queda do desejo sexual, o prazer feminino, a masturbação, as fantasias sexuais e as mudanças na vida íntima ao longo dos anos. Para a especialista, é fundamental compreender que cada pessoa vive sua sexualidade de maneira única e que não existe um modelo universal de normalidade.

Mariana destaca que um dos maiores mitos é acreditar que casais felizes mantêm uma vida sexual perfeita o tempo todo. “Todo relacionamento passa por fases. O desejo pode variar devido ao estresse, à rotina, às questões emocionais e até mesmo às mudanças hormonais. O importante é manter o diálogo aberto e buscar soluções em conjunto”, afirma.

Outro ponto abordado pela sexóloga é a influência das redes sociais e do conteúdo digital na construção de expectativas irreais sobre o sexo. Segundo ela, a comparação constante pode gerar frustração e ansiedade, especialmente entre jovens e adultos que acreditam que precisam corresponder a padrões muitas vezes distantes da realidade.

A especialista também chama atenção para a importância da educação sexual. Para Mariana Kiss, o acesso a informações de qualidade é uma ferramenta poderosa para combater preconceitos e promover relações mais saudáveis, respeitosas e satisfatórias.

Em uma sociedade que ainda encontra dificuldades para tratar a sexualidade de forma natural, especialistas defendem que conversar sobre o tema é um passo importante para o bem-estar físico e emocional. Afinal, compreender o próprio corpo, respeitar os limites do outro e cultivar o diálogo são elementos fundamentais para a construção de relacionamentos mais equilibrados.

Mais do que um assunto restrito à intimidade, a sexualidade faz parte da saúde e da qualidade de vida. E, segundo Mariana Kiss, romper o silêncio é o primeiro passo para derrubar os tabus que ainda cercam o tema. Fiz duas entrevistas com a sexóloga Mariana Kiss para o Podcast Conectividade.

Ao longo de duas entrevistas enriquecedoras para o Podcast Conectividade, a sexóloga Mariana Kiss trouxe reflexões importantes sobre sexualidade, relacionamentos, autoconhecimento e os desafios enfrentados por homens e mulheres na sociedade contemporânea. Com uma abordagem leve, informativa e sem preconceitos, a especialista ajudou a desmistificar temas que ainda geram dúvidas e tabus.

As conversas reforçaram a importância do diálogo, do respeito e da busca por conhecimento para a construção de relações mais saudáveis e satisfatórias. Em um momento em que falar sobre sexualidade ainda é um desafio para muitas pessoas, Mariana Kiss mostrou que a informação é uma poderosa ferramenta de transformação.

O Podcast Conectividade segue cumprindo sua missão de levar conteúdo relevante ao público, promovendo debates que informam, inspiram e ampliam horizontes. E, após duas entrevistas marcantes, fica a certeza de que discutir sexualidade de forma responsável e acolhedora é um passo fundamental para uma sociedade mais consciente, livre de preconceitos e aberta ao diálogo. Agora fique com a terceira entrevista.

Muitas pessoas ainda têm dificuldade em falar sobre sexo. Na sua visão, quais são os maiores tabus que precisam ser quebrados atualmente?

Tabu, segundo a historiadora Jimena Furlani significa “sagrado” e sim, no passado a sexualidade humana, principalmente a feminina era sagrada e divinizada. Os rituais eram ungidos com sangue menstrual, por exemplo. Com o tempo, o termo perdeu seu significado original e se tornou sinônimo de “proibido”. Hoje, tudo na sexualidade é tabu, do natural ciclo da menstruação a todo e qualquer assunto relacionado ao sexo fora dos padrões heteronormativos conservadores. Para não me estender, segue uma lista com os cinco que mais assombram homens e mulheres: 1. o demonizado sexo anal (não dói, não machuca ninguém, não espalha bactérias desde que seja realizado com preservativo, não inflama nossas hemorroidas, não é pecado e não é coisa de mulher da vida ou homossexual); 2. o prazer anal masculino não é restrito aos homossexuais, homens heterossexuais também sentem prazer tanto pelo estímulo direto no ânus quanto indireto na próstata; 3. as parafilias (práticas BDSM, sadomasoquistas e afins) só são consideradas transtornos mentais quando provocam sofrimento aos que praticam, quando não é consensual ou quando é delito (crianças, adolescentes, pessoas vulneráveis, animais); 4 “perder a virgindade”, o termo torna-se um peso para as mulheres porque é envolto a mitos como “a primeira vez dói e sangra” ou uma mulher só é digna quando se casa virgem (pura e casta). O medo da primeira relação sexual com penetração vaginal (como a ciência chama) pode causar vaginismo e o termo “virgem” em sua origem (latim) significava “virilidade” e não castidade; 5. o sexo homossexual como coisa do “diabo porque Deus fez o homem e a mulher com o objetivo de procriação”, essa ideia nada mais é do que uma tentativa de controle social, na natureza há diversas espécies que são homossexuais ou bissexuais e a relação sexual entre homens era o modelo de relacionamento mais comum na Grécia e Roma Antigas, por exemplo, só não tinha esse nome.

Como o estresse, a ansiedade e a rotina acelerada têm impactado a vida sexual dos casais?

 O estresse e ansiedade em excesso são combustível para a produção de cortisol e este é um hormônio que pode provocar na mulher: redução da libido (pulsão de vida e não apenas desejo sexual); diminuição da lubrificação vaginal; dificulta a excitação; altera a produção de hormônios sexuais como estrogênio e progesterona; aumenta a irritabilidade, ansiedade e insegurança corporal. Além disso, quando a mulher está sobrecarregada mentalmente (“preciso trabalhar”, “tenho que cuidar dos filhos”, “não posso esquecer aquilo”), o cérebro permanece em estado de vigilância, dificultando a entrega ao prazer. A sexualidade feminina depende muito da sensação de segurança emocional. O cortisol elevado faz exatamente o oposto: cria um estado interno de alerta. Nos homens, o cortisol elevado pode: reduzir a testosterona; diminuir o desejo sexual; prejudicar a qualidade das ereções e até mesmo provocar ejaculação precoce ou transtorno erétil situacional, dificultar a concentração durante o sexo; reduzir a energia física e a disposição.

Existe uma relação biológica importante: quando o cortisol sobe de forma crônica, a testosterona tende a cair. E a testosterona é um dos principais hormônios envolvidos no desejo sexual masculino.

 A falta de desejo sexual é uma das principais queixas nos relacionamentos. Quais são as causas mais comuns e como é possível recuperar a conexão íntima?

Há fatores fisiológicos como o uso de medicamentos para ansiedade, depressão, diabetes e afins que podem influenciar a ausência de desejo ou até mesmo uma queda na produção de hormônios sexuais. Mas, na maior parte dos casos, a falta de desejo sexual está diretamente relacionada à saúde mental tanto das mulheres quanto dos homens. E isso inclui: brigas na relação devido a problemas fora da cama (financeiros, principalmente), falta de intimidade, falta de fantasias (tabu), puerpério (período pós-parto em que a mulher está se recuperando e amamentando, há homens que pressionam as esposas para que voltem à ativa sexual), filhos pequenos dormindo no quarto ao lado e etc. É possível sim recuperar o tempo perdido, mas, para tal, o casal precisa ir atrás de ferramentas terapêuticas como terapia de casal e/ou terapia tântrica para trabalhar o diálogo assertivo, identificar as questões que estão atrapalhando a cama, sejam elas da própria relação ou do passado individual de cada um, fomentar o perfil erótico de cada um   além de estímulo às fantasias. Sem fantasia, não há desejo. O casal até pode tentar dialogar e buscar uma reconexão sozinhos, contudo, um processo terapêutico é mais eficaz e direto.

As redes sociais e o fácil acesso a conteúdo sobre sexualidade ajudam ou atrapalham a construção de relacionamentos saudáveis?

As redes sociais quando bem usadas (consulta de fontes idôneas) são uma ferramenta poderosa para o casal buscar autoconhecimento íntimo, fantasias e reconexão como no acompanhamento de perfis de sexólogas e terapeutas sexuais, por exemplo. Mas também podem atrapalhar muito ou até afastar o casal ainda mais quando é usada para fugir da relação, ou seja, quando um ou os dois buscam estímulos com outros parceiros de forma virtual ou acessam conteúdo adulto em demasia. Ah… se quiser, pode incluir mais um tabu na lista da pergunta 1: a ideia de que pornografia vicia ou separa casais é equivocada. De fato, não é ferramenta para adolescentes ou jovens adultos consultarem para iniciar a vida sexual e há a pornografia da “deep web” (web proibida) com filmes que incitam violência e delitos. Ela não vicia porque não possui componentes químicos que provocam vícios como a nicotina dos cigarros, por exemplo, contudo ela pode sim ser objeto de vício, ou seja, o indivíduo já possui um transtorno mental precedente (ansiedade, depressão, TOC, transtorno parafílicos dentre outros) e usa a pornografia como um escape das próprias questões. Aí sim, a pornografia pode ser prejudicial, mas, deixo claro que, ela, por si só, não provoca vício.

 Qual é o maior mito sobre sexo que você encontra em seu trabalho e que gostaria de desmistificar de uma vez por todas?

 Vou dizer um mito masculino e um feminino. Para os homens, o maior mito é que “eles precisam estar aptos ao sexo a todo momento e frente a qualquer mulher porque isso é sinônimo de virilidade”, essa ideia pode provocar disfunção erétil ou ejaculação precoce por ansiedade por temor de desempenho. Contudo, os homens não são máquinas sexuais e muitos só conseguem ter ereção quando estão envolvidos emocionalmente. Esse mito também incita que sexo é sinônimo de penetração. Para as mulheres, o maior mito é que elas precisam ser castas para serem respeitadas e que têm de estar aptas a consumação sexual ao bel prazer de seus maridos. O sexo, para ambos, começa na fantasia e tem de percorrer por toda a pele que é o nosso maior órgão sexual. É preciso haver conexão e intimidade entre o casal para o sexo ocorrer com prazer para os dois (ou os três ou os quatros, vai saber se a relação é um trisal ou poliamor, pois não?!). Sem contar que a penetração não pode ser o principal do sexo e o termo “preliminares” contribui com essa ideia errônea pois coloca o sexo oral como algo que vai apenas excitar a mulher antes da penetração e que ela só atingirá o orgasmo após isso… só que não. O sexo pode ocorrer só com estímulos e sem penetração, ou só com sexo oral, ou só com masturbação mútua, ou à distância virtualmente com estímulo às fantasias. Enfim… sexo é muito além dos limites que a gente coloca entre quatro paredes.

 Estamos vivendo uma era de maior liberdade sexual ou apenas uma era de mais exposição e menos conexão verdadeira entre as pessoas?

Essa resposta é muito complexa porque ao mesmo tempo em que temos mais acesso a informações sobre sexo e sexualidade de forma científica, por outro lado, temos também uma sociedade extremamente conservadora e cristã que ressalta diversos mitos e tabus sexuais. As redes sociais e a internet como um todo podem sim distanciar as pessoas tantos umas das outras a nível relacional quanto consigo próprias. Contudo, se analisarmos os casais antepassados de forma empírica (não científica) como podemos atestar que eles eram mais conectados e tinham mais intimidade ainda mais na cama? É impossível. Ouço de amigas que os pais passaram a vida inteira juntos, mas… quem garante que, sexualmente, tinham prazer um com o outro? Muitos casamentos eram arranjados e tantos outros se mantinham apenas por aparência, por dependência financeira ou por conta dos filhos. A conexão verdadeira entre as pessoas tanto hoje quanto antigamente, dependem de uma saúde mental sã, de um autoconhecimento profundo, de diálogo aberto e transparente e de intimidade, muita intimidade principalmente para se dividir fantasias e fazer acordos na cama e até mesmo sobre o modelo de relação escolhido.

Quando o assunto é sexo, o maior tabu não está no desejo, mas na dificuldade de falar sobre ele.

 

Por Luciana Perez

 

 

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