
O primeiro turno das eleições de 2026, realizado no último domingo (4), provocou uma mudança significativa no cenário político brasileiro. Importantes integrantes e aliados do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sofreram derrotas nas urnas, enquanto candidatos ligados à direita e ao ex-presidente Jair Bolsonaro conquistaram posições estratégicas nos governos estaduais e no Congresso Nacional.
O resultado atingiu figuras de projeção nacional, como o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad e a ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva, além de lideranças regionais que integravam a base política do presidente.
O desempenho eleitoral representa um alerta para o Palácio do Planalto, especialmente porque Lula também terminou o primeiro turno presidencial atrás de Flávio Bolsonaro (PL), seu adversário na disputa marcada para 25 de outubro.
Segundo levantamento publicado pela Folha de S.Paulo, candidatos alinhados a Flávio Bolsonaro venceram as eleições para governador em dez estados no primeiro turno, enquanto aliados de Lula conquistaram cinco governos estaduais.
Fernando Haddad sofre derrota expressiva em São PauloUma das derrotas de maior repercussão ocorreu em São Paulo, principal colégio eleitoral do Brasil. Fernando Haddad (PT), ex-ministro da Fazenda e um dos nomes mais próximos de Lula, não conseguiu superar o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Tarcísio conquistou a reeleição ainda no primeiro turno, com 62,65% dos votos válidos, consolidando sua liderança política no estado e fortalecendo o campo bolsonarista.
A derrota de Haddad possui significado que ultrapassa as fronteiras paulistas. Considerado um dos principais quadros do PT, ele era uma aposta para ampliar a influência do governo federal no estado mais populoso e economicamente relevante do país.Com o resultado, São Paulo permanece sob o comando de uma liderança alinhada à oposição, que passou a atuar diretamente na campanha presidencial de Flávio Bolsonaro.
Marina Silva fica fora do Senado
Outra derrota de grande repercussão foi a de Marina Silva (Rede), ex-ministra do Meio Ambiente e uma das personalidades mais conhecidas da política ambiental brasileira.
Candidata ao Senado por São Paulo, Marina recebeu aproximadamente 7,8 milhões de votos, mas não conseguiu garantir uma das vagas em disputa.
Após o resultado, a ex-ministra criticou a composição do novo Congresso e manifestou preocupação com o avanço de setores políticos contrários a parte de sua agenda ambiental. Marina também reafirmou apoio à reeleição de Lula.
A derrota evidencia as dificuldades enfrentadas por lideranças do campo governista para converter reconhecimento nacional e experiência administrativa em vitórias eleitorais.Simone Tebet e Gleisi Hoffmann também são derrotadas
Simone Tebet (PSB), ex-ministra do Planejamento e Orçamento, também não conseguiu uma cadeira no Senado por São Paulo. A derrota é especialmente significativa porque Tebet foi uma das principais responsáveis por ampliar o arco de alianças de Lula nas eleições presidenciais de 2022.
As duas vagas paulistas ficaram com Guilherme Derrite (PP) e André do Prado (PL), candidatos identificados com a direita.
Gleisi Hoffmann (PT), ex-presidente nacional do partido e ex-ministra das Relações Institucionais, foi derrotada na disputa pelo Senado no Paraná.
A ex-ministra não obteve uma das duas vagas em disputa. O resultado representa uma perda importante para o núcleo político de Lula, embora a situação jurídica de uma das candidaturas mais votadas no Paraná ainda dependa de decisão definitiva da Justiça Eleitoral.
Derrotas atingem outras figuras importantes do governoA lista de candidatos derrotados inclui integrantes que ocuparam ministérios estratégicos, parlamentares governistas e aliados regionais.
Entre os principais nomes estão:
Liderança
Disputa e resultado
Renan Filho (MDB)
Derrotado para governador de Alagoas por JHC (PSDB)
Paulo Pimenta (PT)
Não conseguiu vaga no Senado pelo Rio Grande do Sul
Carlos Fávaro (PSD)
Derrotado na disputa ao Senado por Mato Grosso
Celso Sabino (União Brasil)
Não conquistou vaga no Senado pelo Pará
Márcio França (PSB)
Derrotado como vice na chapa de Haddad em São Paulo
Randolfe Rodrigues (PT)
Não conseguiu a reeleição para o Senado pelo Amapá
Renan Calheiros (MDB)
Ficou fora das vagas do Senado em Alagoas
Manuela D’Ávila (PSOL)
Não foi eleita senadora pelo Rio Grande do Sul
Um dos resultados mais representativos ocorreu em Alagoas. Renan Filho, que deixou o Ministério dos Transportes para concorrer ao governo estadual, alcançou 47,37% dos votos, mas foi superado por JHC, que obteve 52,20%.O desempenho foi acompanhado pela derrota de seu pai, Renan Calheiros, que tentava permanecer no Senado, instituição da qual participa desde 1995.
No Rio de Janeiro, derrota de Eduardo Paes enfraquece palanque de Lula
O cenário também se tornou desfavorável ao presidente no Rio de Janeiro.
Eduardo Paes (PSD), aliado de Lula, reconheceu a derrota na disputa pelo governo estadual após uma decisão do Tribunal Superior Eleitoral que determinou a anulação dos votos de Anthony Garotinho e modificou o cálculo dos votos válidos.
A medida abriu caminho para que Douglas Ruas (PL) ultrapassasse a maioria absoluta necessária para vencer no primeiro turno. A retotalização e a proclamação oficial do resultado ainda são etapas relevantes do procedimento eleitoral.
Politicamente, o resultado retira de Lula um importante aliado na disputa pelo governo fluminense, justamente em um estado onde Flávio Bolsonaro demonstrou força no primeiro turno presidencial.Apenas nove de 22 ex-ministros conquistaram mandatos
O levantamento publicado pelo UOL mostra que, entre 22 ex-ministros do atual governo que participaram das eleições, nove conquistaram mandatos legislativos no primeiro turno. Lula e Geraldo Alckmin, que integram a chapa presidencial, ainda disputam a reeleição.
O quadro reforça a dimensão das dificuldades enfrentadas pelo governo nas disputas majoritárias.
Apesar das derrotas, o campo governista também registrou vitórias importantes, especialmente na Bahia, no Ceará e no Piauí, preservando bases eleitorais relevantes para a campanha presidencial.Avanço da direita muda a correlação de forças
A eleição de 2026 também demonstrou a capacidade de mobilização das lideranças conservadoras.
O PL, partido de Flávio Bolsonaro, elegeu 121 deputados federais e conquistou 19 das 54 vagas do Senado em disputa, de acordo com levantamento divulgado após o primeiro turno.
Essa nova configuração poderá impor obstáculos à aprovação de projetos do Executivo e ampliar o poder de negociação do Congresso, independentemente de quem vencer a eleição presidencial.Derrotas regionais aumentam pressão sobre Lula no segundo turno
O maior desafio para Lula, neste momento, é transformar a estrutura partidária e a militância em capacidade efetiva de recuperação eleitoral.
Além de perder aliados estratégicos, o presidente chegou ao segundo turno atrás de Flávio Bolsonaro, que encerrou a primeira etapa da disputa com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% do petista.
Em resposta, Lula promoveu alterações na coordenação de campanha e passou a contar com maior participação de lideranças como Camilo Santana e Rui Costa na articulação política.
O governo ainda dispõe de bases eleitorais fortes, especialmente no Nordeste, mas enfrenta a necessidade de conquistar votos fora de seu eleitorado tradicional e recuperar espaço em estados decisivos.Uma eleição que deixa recado ao Planalto
As derrotas de Fernando Haddad, Marina Silva, Simone Tebet, Gleisi Hoffmann e outros nomes próximos ao presidente demonstram que a vinculação ao governo federal não foi suficiente para garantir sucesso nas urnas.
O avanço das forças conservadoras e as dificuldades de candidaturas governistas apontam para uma mudança na distribuição do poder político brasileiro.
Entretanto, os resultados não permitem concluir, isoladamente, que todos os eleitores rejeitaram o governo Lula. As disputas estaduais também foram influenciadas por fatores regionais, alianças partidárias, popularidade dos candidatos e questões locais.
O fato político central é que Lula chega ao segundo turno mais pressionado, com importantes aliados derrotados e uma oposição fortalecida nacionalmente.
A decisão definitiva sobre a continuidade do atual projeto de governo será tomada nas urnas em 25 de outubro, quando brasileiros escolherão entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro.
Até lá, a principal incógnita será saber se o presidente conseguirá reverter o cenário desfavorável ou se os resultados do primeiro turno representam o início de uma transformação ainda mais profunda no comando político do país.



