A decisão do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, de rejeitar o pedido apresentado por Comte Bittencourt e manter Roberto Freire na presidência nacional do Cidadania não é apenas um desfecho jurídico. Trata-se de um marco político que consolida uma mudança de rumo no partido e antecipa rearranjos relevantes no tabuleiro eleitoral de 2026.
Ao negar a contestação, Gilmar Mendes chancelou, na prática, a atual correlação de forças internas da legenda, fortalecendo o grupo ligado ao deputado federal Alex Manente (SP). Essa ala vem conduzindo, de forma cada vez mais explícita, uma guinada do Cidadania para o campo da centro-direita, enterrando de vez o projeto de reaproximação com setores progressistas que marcou parte da trajetória recente do partido.
A permanência de Roberto Freire na presidência garante estabilidade formal à direção nacional, mas, sobretudo, assegura a continuidade de uma estratégia política que prioriza alianças pragmáticas e eleitorais. Entre elas, ganha força a articulação com o Republicanos, partido de perfil conservador, com forte presença no Congresso e capilaridade crescente nos estados. Essa aliança pode oferecer musculatura eleitoral e tempo de TV, elementos considerados essenciais para a sobrevivência do Cidadania.
Do outro lado, a ala derrotada, capitaneada por Comte Bittencourt, sai enfraquecida. O grupo defendia uma reorientação do partido em direção ao campo progressista, apostando em pontes com legendas de esquerda moderada e setores descontentes com o bolsonarismo, mas críticos ao governo Lula. Com a derrota no STF, essa estratégia perde lastro político e institucional, reduzindo drasticamente o espaço interno para dissidências.
A decisão também simboliza o fim de uma ambiguidade que acompanhou o Cidadania desde sua transformação, ainda como PPS, em uma legenda que buscava se afastar tanto do lulismo quanto do conservadorismo mais radical. A partir de agora, a sinalização é clara: o partido escolhe um alinhamento mais definido à direita, ainda que tente preservar um discurso liberal e institucional.
Internamente, a avaliação é de que o tempo joga contra legendas médias sem identidade clara. O risco de irrelevância eleitoral, agravado pela cláusula de barreira, pressiona o Cidadania a buscar alianças mais robustas, mesmo que isso signifique abandonar antigos compromissos programáticos. Para aliados de Manente, a decisão do STF “encerra um ciclo de indefinição” e permite planejar 2026 com mais previsibilidade.
Já para outros da ala mais a esquerda, o movimento representa uma descaracterização do partido e pode provocar evasão de quadros históricos e lideranças regionais que ainda orbitam o campo progressista. O dilema está posto: ampliar chances de sobrevivência institucional ou preservar uma identidade ideológica cada vez mais difícil de sustentar.
O fato é que, com a canetada de Gilmar Mendes, o Cidadania entra oficialmente em uma nova fase. Mais do que uma disputa interna, o episódio revela como decisões judiciais seguem exercendo influência direta sobre o desenho do sistema partidário brasileiro. E, a menos de 10 meses das eleições de 2026, a legenda já se vê obrigada a jogar pesado para não ficar para trás.
Por Marcos Soares – Jornalista – Analista Político

