
Registros envolvendo Alexandre de Moraes, declarações de Lula sobre Roberta Luchsinger e novas mensagens atribuídas à cúpula do Banco Master alimentam questionamentos sobre relações de autoridades com personagens investigados
Uma sucessão de revelações envolvendo integrantes do Supremo Tribunal Federal, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e personagens ligados ao Banco Master passou a colocar declarações públicas de autoridades sob novo escrutínio. Vídeos, fotografias, registros de acesso e conversas obtidas em investigações têm sido confrontados com versões apresentadas anteriormente pelos envolvidos.
Um dos episódios mais recentes envolve o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Imagens divulgadas neste fim de semana mostram Moraes e sua esposa, a advogada Viviane Barci de Moraes, desembarcando de um Legacy 650 que integrava a operação da Prime Aviation, empresa que teve Daniel Vorcaro entre seus sócios. O registro é de agosto de 2025.
A divulgação ganhou repercussão porque, meses antes, Moraes havia afirmado publicamente que jamais havia viajado em avião de Vorcaro. O escritório de Viviane Barci confirmou a utilização de aeronaves operadas pela empresa, mas afirmou que os voos foram contratados como serviço de aviação executiva e que Vorcaro não estava presente nas viagens. Até a divulgação dos registros mais recentes, não havia nova manifestação do ministro sobre as imagens.
O episódio se soma a outro desgaste político provocado por declarações do presidente Lula durante a campanha eleitoral. Em sabatina realizada em agosto, Lula afirmou não conhecer a lobista Roberta Luchsinger e declarou nunca tê-la visto ou mantido proximidade com ela. Fotografias anteriormente publicadas pela própria Luchsinger já mostravam os dois juntos em diferentes ocasiões. A campanha presidencial sustentou posteriormente que fotografias feitas com uma figura pública, por si só, não demonstrariam uma relação pessoal ou profissional.
Neste domingo, novas informações acrescentaram elementos ao caso. Reportagem baseada em mensagens atribuídas a Luchsinger relata referências a viagens em aeronaves da Força Aérea Brasileira, presença no Palácio do Planalto e ao menos uma passagem pela residência oficial da Presidência. Registros oficiais também indicariam sua entrada no Planalto em período citado nas mensagens.
Luchsinger é citada em investigações relacionadas a suspeitas de tráfico de influência envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. A existência das investigações não representa conclusão sobre responsabilidade criminal dos envolvidos.
Mensagens do Banco Master
Outro foco de questionamentos está nas relações mantidas pelo Banco Master com escritórios de advocacia e pessoas próximas ao ambiente político e jurídico de Brasília.
Documentos encontrados pela Polícia Federal apontam que o escritório da advogada Dalide Barbosa Alves Corrêa recebeu cerca de R$ 33 milhões do Banco Master em 2024. Em conversas entre executivos da instituição financeira, a advogada chegou a ser mencionada como um “canal direto com o STF”, expressão cuja natureza e significado não foram estabelecidos pela investigação.
Novas mensagens atribuídas à cúpula do banco trouxeram outro elemento. Em conversa de dezembro de 2024, o então diretor jurídico do Master, Luiz Rennó, teria pressionado Daniel Vorcaro pela autorização de pagamentos relacionados a precatórios e se referido a Dalide como “sócia” de “GM STF”, em aparente referência ao ministro Gilmar Mendes.
A descrição feita pelo executivo é contestada.
Gilmar Mendes e Dalide Corrêa negam que exista ou tenha existido sociedade entre os dois. O ministro afirmou que a informação é falsa e sustenta que não atuou em benefício dos interesses do Banco Master. Dalide também declarou que jamais representou o banco perante o STF e que sua atividade profissional relacionada aos processos citados ocorreu em instâncias inferiores.
A advogada trabalhou durante anos como diretora-geral do IDP, instituição fundada por Gilmar Mendes, mas afirma ter se afastado do ministro após deixar o cargo em 2017. Segundo as informações disponíveis até agora, a Polícia Federal ainda não apresentou conclusão sobre eventual ilegalidade nos pagamentos recebidos pelo escritório de Dalide.
Cobrança por esclarecimentos
Os episódios têm um ponto em comum: versões apresentadas publicamente passaram a ser confrontadas com registros posteriormente divulgados.
No caso de Moraes, a discussão gira em torno da diferença entre sua declaração de que não utilizou aeronaves de Vorcaro e a confirmação de que viajou em uma aeronave operada por empresa anteriormente ligada ao banqueiro. No caso de Lula, fotografias e registros divulgados pela imprensa contrastam com a afirmação de que nunca teria visto Roberta Luchsinger.
Já nas mensagens do Banco Master, a principal questão está na natureza das relações descritas por executivos da instituição e na necessidade de separar referências feitas em conversas privadas de vínculos efetivamente comprovados.
Em meio às investigações sobre o Banco Master e às revelações relacionadas a personagens próximos aos centros de poder de Brasília, cresce a cobrança para que autoridades apresentem explicações precisas e documentadas sobre relações, viagens, contratos e encontros que passaram a integrar o debate público.
As investigações permanecem em andamento, e parte das informações reveladas até agora é contestada pelos citados. Não há, nos elementos apresentados, conclusão judicial definitiva que comprove ilegalidade apenas em razão das viagens, encontros ou relações descritas nas mensagens.
Por Marcos Soares - Jornalista e Analista Político




