A derrota de Eduardo Paes (PSD) na disputa pelo governo do Rio de Janeiro abriu um novo capítulo de incertezas na relação política entre o ex-prefeito da capital fluminense e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Após uma campanha marcada por sinais de distanciamento, a saída de Paes da disputa estadual alimenta questionamentos sobre o grau de comprometimento do político com a campanha de reeleição do presidente.

Neste sábado (10), o Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ) realizou a retotalização dos votos do primeiro turno, confirmando matematicamente a vitória de Douglas Ruas (PL), que alcançou 50,88% dos votos válidos, contra 44,16% de Eduardo Paes. A alteração ocorreu após o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determinar a anulação dos 274.411 votos recebidos por Anthony Garotinho (Republicanos).

A retotalização não modificou a quantidade de votos recebidos pelos candidatos, mas alterou a base de cálculo dos votos válidos. A proclamação definitiva do resultado pelo plenário do TRE-RJ está prevista para 15 de outubro.

Derrota eleitoral e afastamento dos holofotes

Após a negativa do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), ao recurso apresentado por sua campanha, Eduardo Paes anunciou que não prosseguiria na disputa pelo governo estadual.

A decisão representou uma mudança significativa para o político, que havia apostado na eleição de 2026 como oportunidade de ampliar sua atuação do comando da capital para o governo de todo o estado.

O afastamento temporário de Paes da cena política, entretanto, ocorre justamente quando Lula precisa fortalecer seus palanques regionais para enfrentar Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno presidencial.

Embora existam relatos de recolhimento político após a derrota, não há confirmação independente suficiente, nas fontes consultadas, de que Paes tenha viajado para um sítio com a intenção de abandonar a campanha de Lula. Tampouco há anúncio formal de rompimento entre os dois.

Paes troca a campanha pelo descanso em um sítio

A viagem para a Região Serrana do Rio foi confirmada por publicações divulgadas na sexta-feira (9). Paes decidiu passar o feriado prolongado em um sítio com a esposa, Cristine, após a derrota eleitoral.

Em vídeo publicado nas redes sociais, o ex-prefeito falou de maneira descontraída sobre os planos de descanso, resumindo o momento com a frase: "Final de semana com a gata no sítio".

O episódio ganhou repercussão pelo momento político. Enquanto Lula enfrenta uma disputa presidencial decisiva, um de seus principais aliados no Rio optou por se afastar temporariamente dos compromissos públicos. A viagem, contudo, não comprova abandono definitivo da campanha presidencial.

Relação com Lula já apresentava sinais de desgaste

As divergências entre Eduardo Paes e integrantes do entorno de Lula não começaram com o resultado das urnas.

Durante a campanha estadual, o ex-prefeito procurou preservar uma imagem de independência partidária, evitando associar sua candidatura exclusivamente ao presidente petista.

A estratégia tinha uma explicação eleitoral: parte dos eleitores de Paes também demonstrava simpatia por Flávio Bolsonaro, fenômeno que ganhou o apelido de "Bolsopaes".

Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, Lula chegou a manifestar insatisfação a aliados com o empenho de Paes na campanha presidencial. O presidente avaliava que o político fluminense poderia ter participado de maneira mais contundente da defesa de sua candidatura.

Em resposta às críticas, no dia 7 de outubro, Paes declarou:

"Eu não sou do PT, eu não penso tudo igual ao Lula, eu não sou um vassalo do Lula."

Apesar da declaração, Paes reafirmou naquela ocasião seu voto e seu apoio à reeleição do presidente, negando a existência de um desentendimento pessoal entre ambos.

Lula perde força no Rio enquanto Flávio Bolsonaro ganha espaço

A derrota de Paes não representa apenas uma mudança no comando político estadual. Também cria dificuldades para a campanha presidencial petista em um dos maiores colégios eleitorais do país.

Com Douglas Ruas fortalecido pela vitória e alinhado ao projeto presidencial de Flávio Bolsonaro, o PL amplia sua capacidade de mobilização no território fluminense.

Além disso, lideranças municipais que anteriormente integravam a base de apoio de Paes começaram a se aproximar do grupo político vencedor, movimento que pode enfraquecer ainda mais a articulação regional de Lula.

A situação coloca o presidente diante de um desafio: reconstruir alianças no estado sem depender exclusivamente de Eduardo Paes.

Rompimento político ou apenas uma pausa estratégica?

Apesar das especulações, o cenário ainda não permite afirmar que houve rompimento político entre Eduardo Paes e Lula.

Na realidade, reportagem publicada neste sábado (10) pelo UOL aponta que setores do PT esperam justamente o contrário: uma participação mais intensa de Paes na campanha presidencial após o encerramento de sua disputa estadual.

Há, entretanto, uma questão política importante. Depois de sofrer uma derrota expressiva em suas ambições de governar o Rio, Paes terá disposição para investir seu capital político na reeleição de Lula?

O ex-prefeito também precisará avaliar os próximos passos de sua trajetória. Uma aproximação excessiva com o PT poderia dificultar o diálogo com segmentos conservadores que apoiaram sua candidatura estadual. Por outro lado, o afastamento definitivo de Lula poderia comprometer uma aliança construída ao longo dos últimos anos.

O fato é que o descanso na serra acontece em um momento especialmente delicado para a relação entre os dois políticos. As declarações anteriores de Paes, as reclamações atribuídas a Lula e a derrota eleitoral indicam tensões reais, embora ainda não constituam prova de uma ruptura.

Com o segundo turno presidencial marcado para 25 de outubro, os próximos movimentos de Eduardo Paes serão decisivos para esclarecer sua posição.

A grande pergunta agora é se Paes retornará do descanso para reforçar a campanha de Lula ou se escolherá manter distância, preservando seu próprio projeto político para os próximos anos.